3 de julho de 2011

A literatura homeopática de Machado de Assis

3 de julho de 2011
Certa feita, uma epidemia em Itaguaí; de alguma febre, sei lá; o pai de Bentinho pediu a José Dias, médico, até então, que averiguasse como essa doença estava afetando a escravatura. José Dias confessa que não era médico: fingira, desde sempre, a profissão. Mas você curou das outras vezes, exclamou o pai de Bentinho. Dias confirma, mas reconhece que a cura não foi obra sua, mas dos remédios, per si, e de Deus, que inventou todas as doenças, todos os remédios e todos os médicos do mundo. Chama atenção a confissão do falso médico: a homeopatia é a verdade, e, para servir à verdade, menti; mas é tempo de restabelecer tudo.
A homeopatia é, segundo o dicionário Aulete, um sistema de medicina clínico-terapêutica que consiste em tratar as doenças por doses infinitésimas de drogas que produzem efeitos semelhantes ao do problema que se pretende tratar. Quer dizer, as mesmas substâncias que causam as doenças podem curá-las. Tal característica, a partir da perspectiva do ser causador da doença, é capaz de fazer-nos imaginar um espelho: o que vemos do lado de dentro se parece muito com o que está do lado de fora, mas na verdade é outra coisa; semelhante, de fato, mas invertido; às vezes menor, às vezes maior, e sempre capaz de confundir-nos e até enfeitiçar-nos: como essas substâncias infinitésimas da homeopatia, fingindo-se amigas das doenças, mas dispostas a eliminá-las devagar.
A literatura de Machado, pode-se dizer, também, é mais ou menos igual. Para servir à verdade, mente – como o espelho, que só pode nos servir se mentir; como a homeopatia. Machado, como José Dias, não reconhece a possibilidade de servir à verdade com mais verdade – o que muitos chamariam de realismo – e mente. Sua literatura – é bom repetir – só pode nos servir se mentir. Afinal, a realidade é boa (e precisa ser servida, sem ambiguidade), o realismo é que não presta pra nada (não serve pra nada).
Há algo mais na fala de José Dias que deve incomodar um pouco os realistas: não foi ele quem curou seus pacientes, mas os remédios. Sua obra escapa de seu controle. Se em vez de homeopatia, José Dias usasse a literatura como remédio, não seria ele o responsável pela cura, mas aquele que leu. Quem lê um texto, recria e ressignifica um texto. Como se pode falar de realismo diante de um abismo desses, se o que eu escrevo, ao ser apresentado a um leitor, pode ser lido de uma maneira completamente diferente e inesperada?
Mas é tempo de restabelecer tudo. José Dias reconhece que não pode viver eternamente na mentira e volta à verdade. Mesmo mentido, a literatura cura, mas é preciso voltar à verdade – não se pode viver eternamente no mundo da literatura; é perigoso tornar-se personagem. E aí está o retorno que a literatura nos dá: quando voltamos à realidade, a vemos com outros olhos, porque a literatura permite-nos aprender e sentir certas coisas que, na realidade, seriam dolorosas ou impossíveis demais. A literatura, mentindo, é também essa antecipação da verdade.
Um momento: ouço vozes. Ah, sim, é este coqueiro que me vê inquieto e adivinha a causa. Que não chamem este texto meu de realista!  
_____________________________________________________________________ Texto publicado originalmente no site Dubito Ergo Sum. Minha segunda prova de Teoria da Literatura III, matéria bacana que pastores, deputados, crianças e lagartixas deviam estudar.

2 comentários:

Igor Rios disse...

Muito interessante.

Mila Suzano disse...

Texto realista! rs