Num trecho da estrada por qual passo todos os dias a caminho da UERJ, entre o Maracanã e a Universidade, um pichador havia deixado num muro escrito (até as obras do estádio acabarem com o muro): o que é real? Hoje me pergunto: será que ele suspeita de que alguns de nós, universitários que ali lemos sua pichação, também temos a mesma dúvida?
Não sei se é uma dúvida séria. Como disse o sábio, nas escrituras sagradas do cristianismo: a realidade está bem distante e é muito profunda; quem pode descobri-la? Mas mesmo que não seja séria - se a seriedade de uma pergunta pode ser avaliada pela possibilidade de se ter uma resposta objetiva - é uma dúvida que vale a pena levar mais à frente.
Friedrich Nietzsche propôs a não existência de fatos, mas apenas de interpretações, e até isto, acrescentou o filósofo alemão, “já é interpretação”. Quer dizer, a realidade não existe independente de um sujeito que a represente: a representação do sujeito é o que cria a própria realidade, de maneira dialógica: o sujeito observador não está de fora da sua representação, mas faz parte dela e, a partir dela, é também modificado – como são modificadas as representações dependendo dos sujeitos que as representam.
Quando o artista de rua pergunta o que é real, se ele parte desta ótica de que não existe um mundo disjunto de seus sujeitos, quer muito mais do que fazer apenas uma pergunta clichê que denuncia sua própria loucura, como costuma pensar o senso comum. Ele quer perguntar: quem de vocês é pretensioso o suficiente para achar que a realidade de vocês é a realidade, “na realidade”? E afirmar: a realidade de vocês é dependente dos “olhos” de vocês; os “olhos” de vocês são dependentes da realidade de vocês. Vocês criam a realidade e a realidade cria vocês (Aqui há o perigo de se trocar a arbitrariedade do realismo idealista – que supõe que uma única realidade seja toda realidade - por um surrealismo, também idealista, já que a realidade passa a ser criada por um sujeito que pode atuar de forma arbitrária. Uma possibilidade para se evitar tal discrepância, como propõe o filósofo italiano Gianni Vattimo, se daria num conflito em que seria necessário um ideal regulativo em direção do qual se mover. Esse ideal regulativo pode ser, num paralelo, a realidade de que o sábio bíblico fala no segundo parágrafo, que existe, mas é inacessível).
Anselmo, um dos protagonistas da tríade amorosa de “O curioso impertinente”, novela de Cervantes, responderia com um sim à pergunta do artista de rua aqui de perto da UERJ: sim, eu sou pretensioso o suficiente para querer ter acesso a toda realidade. Não sei se Camila, minha esposa, é tão boa quanto parece. Quero a realidade até a última consequência. A incerteza que me invade arranca a paz do meu coração. Já não posso dormir bem ao lado de tão maravilhosa mulher sem saber se ela é mesmo tudo isso. Preciso testá-la, através dos métodos científicos, e dar essa desconfiança por encerrada.
Aqui talvez more o pragmatismo da questão, sanando a desconfiança inicial sobre a seriedade desse tipo de discussão: Anselmo não consegue suportar a ausência do domínio sobre a realidade e perde o chão. Ele encontra dificuldades para lidar com os ciúmes por nem sequer desconfiar que esteja sob sua responsabilidade grande parte da realidade em que vive. O ciúme é revelador por ser, mais claramente, representação do real por parte de um sujeito: um homem e uma mulher vão retratar a mesma situação de forma completamente desigual sem que tenhamos de colocar os termos verdade ou mentira como parâmetros de julgamento. No ciúme não existem fatos, só interpretações. Quem poderá descobrir a realidade, de fato, neste tipo de fenômeno?
Prossigamos tentando, jogando para perder, sem nos arriscar muito: a curiosidade matou um gato.
_____________________________________________________________________ Texto publicado originalmente no site Dubito Ergo Sum. Mais originalmente ainda, minha prova de Teoria da Literatura III.

1 comentários:
E eu achava que os meus trabalhos para o Gustavo eram bons...!
Maravilhoso, Pércio! Isso sim é nota 10.
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