8 de outubro de 2010

Sexo congregacional

8 de outubro de 2010
Domingo. Dia do Senhor. O povo eleito se levanta bem cedo para estar com cara de bênção, pontualmente às 8 da manhã, na Escola Bíblica Dominical; na Casa de Deus.
A lição de hoje na classe dos adolescentes é sobre aquela coisa que nós, crentes, abominamos. É até difícil falar o nome da coisa; é até difícil escrever. É... Sexo. A lição do domingo de hoje é sobre sexo, e a professora Paula Tejando se vê em maus lençóis.
“Como falar de sexo pra essas crianças?”, ela pensa, “como posso falar em pênis ou vagina? em cópula! Como posso falar em gozo e prazer?!” Sabia que teria uma tarefa difícil pela frente; seria sua primeira vez. Ainda assim, aceitou o desafio, revestiu-se daquela armadura que a Bíblia fala, preparou-se, e encarou a dificuldade de ladinho de frente.
“Bom dia, meus amores!”, diz ela com um grande sorriso, por um momento esquecendo-se do indelicado assunto em que terá de tocar tão logo. “Hoje vamos falar sobre uma coisa difícil, gente. mas olha, eu não quero gracinha, hein! Nada de risadinha pra gente evitar contenda e essas coisas que vêm do maligno! Hoje vamos falar sobre... Ssss... Se... Se... Sexo.” Os adolescentes fazem silêncio: até então, a igreja era um gomo da laranja de suas vidas e o sexo era outro. A mão direita dos garotos, dentro da igreja, era só pra apertar a mão do pastor e tocar um instrumento musical. Eles não imaginavam poder comer dois gomos ao mesmo tempo.
“Então, gente, sexo é um bênção de Deus! Coisa muito boa!”, tia Paula tremeu, não imaginava que teria de começar o desafio admitindo verdade tão difícil. “Mas”, ela continuou, “é pra gente se guardar pro nosso parceiro. Tem que assinar os papéis tudo direitinho, ter a bênção do pastor e só depois fazer o sexo. O seu corpo deve ser guardado para o seu esposo, varoa! O seu corpo deve ser guardado para sua esposa, varão! Nosso corpo é templo do Espírito Santo.”
Ela já não aguentava mais o desconforto do assunto, mas passou para a etapa mais segura. “Vamos abrir nossas bíblias em I Coríntios 6 e ver o que Deus diz sobre o sexo.” O barulho das páginas de várias bíblias virando ao mesmo tempo poderia ser reconhecido às cegas na mais barulhenta cachoeira. “Vamos ler o versículo 15 e o 16”, diz a embaraçada professora, “eu leio o primeiro, vocês, o segundo.”
“Vocês não sabem que os seus corpos são membros de Cristo? Tomarei eu os membros de Cristo e os unirei a uma prostituta? De modo nenhum!”, começa tia Paula.
“Vocês não sabem que aquele que se une a uma prostituta é um corpo com ela? Pois, como está escrito: ‘Os dois serão uma só carne’.”, fecham coro os alunos, atrapalhando-se um bocado pelas versões diferentes de bíblias.
“Então, queridos, fica claro que devemos tomar muito cuidado com o sexo. Só podemos ser um com nosso cônjuge e ele ou ela tem que ser parte do corpo de Cristo, porque jugo desigual não pode. Nunca, ouçam bem, nunca, devemos fazer sexo com um ímpio e ser um com ele, unindo-o também ao corpo de Cristo, de que ele não pode fazer parte.”
Manuelino levanta a mão: “Professora, a Bíblia diz que não devemos fornicar por aí com prostitutas porque elas não são do corpo de Cristo.” “Muito bem, Manuelino!”, replica a professora. “Todo mundo que tá aqui na igreja é santo e faz parte do corpo de Cristo, não é?”, continua o garoto, “Homens e mulheres”. “Claro, meu filho, somos todos ungidos”, confirma Tia Paula, sem entender aonde o jovenzinho quer chegar. “Somos um só corpo, né professora?”, adianta Manuelino, “Claro, querido”, devolve a professora antes do golpe final do adolescente: “Então... Com as novinha aqui da igreja vale tudo?”
Tia Paula confunde-se, repreende-o garoto e termina mais cedo a escola dominical.

6 comentários:

Nilton Terceiro disse...

Desculpa os trocadilhos no comentário, mas...

Esse foi um passeio gostoso sobre esse mundo obscuro.

Eu mesmo já dei aula na EBD, falando de sexo para adolescente. Não sei se bem ou mal, naquela época eu conseguia deixar a língua dentro da boca :)

Pércio Faria Rios disse...

Todo mundo já penetrou nesse mundo obscuro, cara.
É ruim quando a oralidade se torna algo meio "duas garotas e um copo". Só sai merda.

quareesma disse...

ainda bem que a tia Paula não é minha professora '-'

Ju Peres disse...

MUITO BOM!
HUAHAUHAUHAUHUA

Priscilla Acioly disse...

HAHAHAHHA eu ri demais do texto. Gostei das ironias... do que você falou sobre os gomos da laranja, achei sensacional. Em algumas igrejas sexo é realmente falado dessa forma artificial aí, fica meio que impedido fazer um debate ou algo do tipo. Como diz o Victor Hugo... SECHO!

Priscilla Acioly disse...

secho, séquiço, sexo... temos optado durante muito tempo não falar sobre ele.